Foi por amor, filho. Não me condene. Não diga que foi traição. Foi amor simplesmente. E só fazemos justiça quando sentimos amor, e eu sinto tudo isso por você.
A vida daquela moça era menos valiosa que a sua? Ciúme enlouquece, meu bom menino. Você pensou que a mãe dela também sofreria? Eu ainda tenho você. Apesar de tudo, tenho você. Ela não. Ela chora a morte de um sonho, de um pedaço que jamais será preenchido.
Seria injusto filho, te esconder em outra cidade. Enquanto a família da moça chora, por teu ato covarde. Será que eu nada te ensinei?
Lembra que somos responsáveis pelos nossos atos? Se foi impensado da tua parte, se em nada foi um crime premeditado, não importa. Ela se foi. E você a fez ir antes do tempo. Ciúme condena, filho. Amor liberta! E por amor, te liberto para que a justiça seja feita. Mesmo que para isso eu tenha que te entregar para eles.
Teu filho ficou aos meus cuidados. E outro dia, perguntou-me pela mãe. Todas as palavras do mundo pareceram se esconder de mim. Paralisei. Ele é tão pequeno e não entenderia o que nem nós conseguimos. Como tudo pode chegar a este ponto, filho?
O deixei na inocência da infância, ao menos por agora prefiro que seja assim. O processo judicial corre na justiça. A outra avó luta pela guarda dele. Só desejo que seja feito o que for melhor pra ele. Não quero nada pra mim.
Ele me sorri, e por dentro choro por você, por ela, por ele. Ele que perdeu a mãe, você que não vê o crescimento dele, ela que não verá o sorriso dele nunca mais. Esse teu ciúme sem medida destruiu mais coisas que você possa imaginar.
Estou com saudades da tua voz me cantando bom dia. Do teu (bom) humor. Saudades do filho que deixou de ser homem, para se tornar um monstro. Me dói dizer isso, mas foi exatamente o que fizestes. Uma monstruosidade.
Só poderei te visitar daqui a um mês. Antes disso, na tentativa de deixar claro que estarei sempre contigo, te escrevo essas palavras.
Um beijo acolhedor,
Tua mãe.