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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

É fantasia, é ficção

Você agora deu pra beber nos bares que freqüento, passeia pelas ruas que escrevi minhas várias histórias, despe seu corpo com outro na mesma cama que eu adormeci tantas noites. Você agora deu pra me ligar vez em quando, me chamar de querida, me querer de comida, de água e o escambau. Você usa minhas roupas, meu perfume, e até o meu baton, me chama pela tarde, mas eu quase nunca estou. Você me escreve cartas indiretas, se maqueia só pra se mostrar mais feliz, fala de amores antigos e dos que estão por vir. Isso são apenas máscaras, daquelas que eu te vi usar por aqui. Um dia a casa cai, nada fica no lugar, e aí? Você volta correndo, correndo pelos caminhos que o tempo já modificou, não se encontra, não me encontra. Bebe mais um gole de cerveja, procura por minha saliva, deita na cama vazia, grita por estar sozinha. Os sonhos já não existem, se tornaram miragem das tuas mentiras, mentiras que me contas tentando me ferir, me abrir. E se me abre, por que não me toma? E se me quer, por que não me come? Você agora deu pra sorrir por aí, com aquela risada que eu registrei na velha fotografia estampada no porta-retrato. A fotografia ficou, a gente não, a gente nem existe, nunca existiu, a gente é fantasia, é ficção. Você agora deu pra me provocar ciúmes, quer ver minha cara feia, meu instinto animal. Você coloca a melhor roupa, só pra me ver olhando, sai com o melhor perfume, aquele todo especial da primeira vez, fica na esquina me esperando passar, quer ver minha cara de perturbada ao te encontrar. Agora você deu pra ler os livros que leio, só pra saber que palavras usar, ouve as músicas que escuto, me dedica letras que fazem chorar.
Agora você deu pra vasculhar minha gaveta, minha bolsa, minha carteira. Bagunça todo meu interior, diz que está procurando algo, você não encontra, volta a procurar. Fico de pernas pro ar, virada de ponta cabeça e você vai embora. Vai beber naquele bar, no mesmo bar que deixei cair minha roupa, minha carne, foi lá que perdi meu lugar. Agora você quer me cobiçar, apela pra minha luxúria, pr´essa falta de ar. Eu já mudei de cidade, transformei a rotina, virei bailarina. Eu já nem canto, nem durmo, já não como e nem choro, já nem deito e nem ando, já não peço ou imploro. Eu já nem sei se estou, se fiquei ou se fui. Divida essa cerveja comigo, deixe escorrer esse álcool em mim, até parar no meu umbigo.

2 comentários:

Arthur Matos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Arthur Matos disse...

Realmente você escreve muito bem!
Quando envolvemos com o texto faz despertar uma grande curiosidade sobre a realidade ou não! Seria esta uma ficção? Não saberei dizer, mas é tão real que aquele que consegue ler com os olhos atentos pode mergulhar nas palavras!

beijos