Pages

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

(Es)correndo sentimentos



Escorria-lhe sangue das mãos. Uma lamina afiada estava jogada no chão da cozinha.Quisera se matar e tudo que conseguira fora sujar o chão. O corte lhe ardia o membro. O amor lhe queimava o peito. E no final, tudo era dor. Não sabia onde começava ou terminava, mas era dor. E disso não tinha dúvidas.


Covarde, covarde – era o que dizia a si mesma enquanto tentava fazer o sangue estancar. Não queria sujar toda cozinha. Não queria ter o trabalho de limpar tudo depois. Mas o sangue fluía e o amor lhe doía no peito.

O telefone tocou na sala. Pensou em atender, mas depois lembrou que não queria falar com ninguém. Aliás, não poderia ser nada de importante. Nunca o era. Certamente seria engano. Não quis arriscar em atender. Tinha decidido não ser incomodada, e assim seria.

Sentiu enjôo. Por um instante tudo ficou embaçado. Segurou-se na porta do armário. Não poderia cair. Não ali. Desejou estar perto da cama nesse momento. Respirou fundo. O mal- estar estava passando.

Pegou um pedaço de gaze e enrolou o pulso. Foi para o quarto. Deitou na cama. Se espalhou pelos lençóis, sentiu o cheiro dele e quis gritar. Abafou o grito no travesseiro. Relembrou as duras palavras. A voz dele lhe dizendo que estava indo embora, que não a queria mais. Não deu oportunidade para conversas. Falou o que queria e saiu. Ficou com as perguntas na cabeça. E no coração dela ele cravou um ponto final. Foi injusto – pensou. Nem ao menos sabe o que aconteceu de fato. Ele simplesmente se foi. Foi.

Ela ficou. Ficou desprotegida. Sozinha. Sangrando. O sangue não lhe escorria apenas nas mãos. Sentia o corpo inteiro fluir. E isso lhe doía. E doía muito.

De súbito pensou : - E se fosse ele ao telefone? Se estivesse arrependido?

Não. Não poderia ser. Do contrário teria voltado. Tinha as chaves do apartamento.

E na confusão dos pensamentos, adormeceu.
 
Acordou quando já passava do meio dia. Estava confusa e aos poucos tentava lembrar tudo que tinha acontecido. O pulso ainda latejava. Mas era o coração que mais lhe doía. Tentou chorar, foi em vão. As lágrimas não lhe viam e isso era sufocador. Pensou em levantar da cama, tomar um banho, fazer com que a vida voltasse ao seu curso normal. Desistiu. Na verdade, não queria levantar, e sentiu a mesma vontade de por fim a sua vida. Mas até para isso se sentia covarde. Logo, desistiu dessa idéia também. Ficou quieta. Encolhida como um animalzinho indefeso gemeu suas dores ao travesseiro. Mas ela sabia, que nada disso o traria de volta. Nada.

O telefone tocou mais uma vez. Tocou, tocou... Não atendeu. Não entendeu o porquê tudo isso havia acontecido. Praguejou o amor. O amor que ainda estava aceso em seu peito. O amor que apesar de tão ferido estava vivo. Enquanto ela se sentia morta. Gritou! E o seu grito ecoou por todo apartamento. Socou os travesseiros, a cama, a si. Sentia raiva. Era raiva dele. No entanto, acreditava que a raiva por si mesma era bem maior. Não entendia como ainda poderia lamentar por alguém que por ela não tinha a mínima consideração. Se achou uma idiota. E repetiu essa palavra inúmeras vezes. No minuto seguinte, o amou com mais intensidade. O desejou. Queria os dias de sol outra vez. Mas se sentia chover – e era triste.

Teria se apaixonado por outra pessoa? – pensou. Maldito seja ele! – esbravejou. Desejou dormir mais um pouco. Sentia o corpo tão pesado. Tudo era pesado demais. Se sentiu incapaz. Indefesa. Sentiu-se nada diante de todas as sensações que a envolvia. Ficou horas tentando dormir. Tentando levantar. No entanto, não saia do lugar. Num ato impulsivo e de impaciência, arrancou o curativo que tinha colocado no pulso. Sentiu a dor do ato brusco. Porém, não reclamou. Não demorou muito e começou a minar sangue outra vez. Não se importou. Também tinha o coração aberto e esse sangrava sem parar. Não pensou mais nas dores, não pensou mais no sangue que escorria, adormeceu.

Encontraram-na ainda dormindo uma semana depois. Não se sabe ainda ao certo o que causou sua morte.

Aliás, nada disso importa. Ela se sentiu morrer antes mesmo do corpo padecer. E essa foi a pior sensação.


22 comentários:

- maria elis disse...

confesso que ainda tinha esperança dele voltar e não deixar acontecer o que aconteceu - a morte dela. ;x

beija tati ;*

a magia da noite disse...

a vida é algo que não nos pertence, tirá-la será roubar aquilo que nos anima

Luana Gabriela disse...

Tati, a maior dor é não ter o dia de amanhã pra pode ser diferente. Esse é o melhor presente da vida, que se hoje dói, amanhã pode parar de doer.

Fica com Deus!

Bjos

Varda disse...

Credo...se matar por ele num vale!!

Natália Corrêa disse...

O sangue do corpo acabou antes da dor no peito.

Elizabeth disse...

como se o sangue que saia do corpo, carregasse com ele a dor...

P.S adorei seu blog!

Mulher na Polícia disse...

Menina do céu!
Que susto!

Ainda bem que foi só um texto...
Ainda bem, né???

bjo!

Erica Ferro disse...

O pior é sangrar, e não ver o sangue jorrar.

Beijo.

Katrina disse...

E tem gente que consegue ressuscitar para morrer outra vez

Luna Sanchez disse...

E eu ainda me questiono se isso tudo vale a pena...

Beijos, dois.

ℓυηα

pequena disse...

Ai amiga, a imagem é muito forte...o texto tbm...

bjos flor e boa semana pra vc viu?

xerim

Erica Vittorazzi disse...

Não valeu a pena...

Amorinha disse...

Apesar do conteúdo, gostei muito de como o texto foi escrito. Acho que tirou um pouco daquela fraqueza dos que se matam e deu uma profundidade.
Beijo

Carol Mioni disse...

Eu poderia jurar que era ele ao telefone... não podemos deixar passar qualquer oportunidade, por mínima que seja... enfim... triste morrer por dentro antes de por fora... triste...

Bia Monteiro disse...

Nossaaa...
Que intenso...
A imagem inevitavelmente naum me sai da cabeça...
Gostei!
Bjos
=D

Dustin disse...

Prometo que você me tirou uma lagrima,

gii disse...

AAh, isso realmente me tocou. Fiquei com tanta raiva dele... E de mim. Por me sentir exatamente como ela. :/
Lindo texto.
Beijoos.

Cynthia Osório disse...

Desscrição precisa e detalhada, quase pude estar lá...adorei o desfecho!

Lucas Lima disse...

nossa, emotivo ao último estágio, rsrs
bons dias

Hosana Lemos disse...

cara, essa foto me deu arrepioo!!
nossa.
Agoniante.

Fortíssimo o texto, bem pesado...
sabe-se lá o que passava na cabeça dela, sabe-se lá o tamanho da dor...prefiro não julgar, cada um sabe de si! ;)


lindoooo


beijos

Cibele Portela disse...

Ainda me ficou uma vaga esperança dele voltar, mas nem era o melhor a ser feito. Ela já estava morta quando ele fechou a porta, e é assim que milhares de mulheres se sentem pelo menos por instantes.
Beijo.

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

Poxa, bem que eu pensei que podia mesmo ser ele ao telefone. Bom, agora n importa mais, né?

N entendo muito de tentativas de morte e tudo o mais, mas o teu texto foi muito bem escrito e disso eu tenho certeza absoluta. Parabéns!