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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Tarde quente


Era mais uma tarde quente, afinal, sempre estava quente demais naquela cidade. Não tinha nenhuma programação em mente, nada para fazer, até que recebi uma ligação. Era um convite. Não. Na verdade era uma intimação. Nunca tinha ido até a casa dela. Esse tipo de intimidade sempre foi evitada entre nós.
Não demorou, e lá estava eu. Primeiro um reconhecimento tímido do local. Conversas e risos, na tentativa de tornar tudo aquilo o mais natural possível. Me peguei por diversas vezes prendendo a respiração, era involuntário.
Meu corpo inteiro já emitia sinal de alerta, minha cabeça já não conseguia pensar com clareza, meus sentidos estavam todos aguçados. Eu me sentia um animal. Atenta, sagaz. Pronta para o ataque. E ela, ela era a minha presa.  Observava atentamente cada movimento. Ouvia a sua voz, mas não compreendia mais suas palavras. Cada movimento, cada respiração, tudo era precisamente acompanhado por meus olhos famintos. Sim. Eu tinha fome.

Não demorou muito, e já estávamos entregues.  Eu já não sabia o que era meu, o que era dela. Éramos uma. No fogo, na paixão. E tudo queimava. Eu a invadia, a queria desvendar inteira. Estava ali, aberta e minha. E me queria, me chamava, implorava para que eu estivesse dentro e me demorasse por lá.  Passeei por cada milímetro, preenchi cada espaço, me espalhei por todos os lados. Era só nós. O eco firme dos nossos gemidos tomava dimensão, ganhava força. Era real e verdadeiro. Nossos corpos dançavam, se reconheciam, se queriam. O gozo veio firme, quente, avassalador. Eu a sentia tremer em mim, me deixei cair sobre o seu corpo cansado, extasiado.  Era nós. No ápice do que somos.

A vida? A vida segue, quer você queira ou não. E aquela, aquela não era a nossa vida. E seguimos. Aquela tarde foi quente, bem mais que o habitual.

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