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sábado, 17 de junho de 2017

Carta.


Pensei em te escrever uma carta, mas eu lembrei que não tenho o teu endereço. Muita coisa mudou desde a última vez. Não sei nem se ainda mora na mesma cidade. Pensei em ligar, mas recordei que nunca tive teu número.  E aí? Como vou te falar? Falar essas verdades tão expostas, tão engessadas pelo tempo.
Sabe que outro dia eu te vi na estação? Saí correndo, abrindo espaço entre as pessoas, na tentativa falha de te alcançar. Observei ofegante, aquela que para mim era tua materialização e num piscar de olhos, tudo se desfez. Não era você. Fiquei perdida. Estática. Precisei de uns minutos para me apossar da realidade que estava diante de mim. Coração partido mais uma vez – foi a miragem da saudade constante.
Caminhei até uma praça próxima, sentei num banco qualquer. Tentando aliviar a pressa dos meus pensamentos. Essa angústia que me visita vez em quando. Crianças corriam de um lado para outro, dispersou um pouco minha atenção, e aos poucos, fui tomando o controle de mim mesma outra vez.
Lembrei do dia que passeamos tranquilas num parque, por entre as árvores e as pessoas. Será que alguém notou a paixão em nossos olhos? Será que você sentia o quão apaixonada eu era? Tínhamos um mundo a desbravar, tantas coisas a descobrir. Mas o que descobrimos mesmo foi como viver em mundos distantes, em realidades paralelas. Descobrimos a dureza de não ver germinar nossos sonhos, nossos planos. O sabor dos beijos deu lugar a esse gosto amargo de renúncia.  O cheiro se perdeu na dolorosa conta do tempo – do tempo que não estamos.
Queria te escrever uma carta, mas não tendo teu endereço, vou rabiscar essa saudade nas nuvens, pois ela mora no mesmo céu que te guarda. 

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